Medicina Psiquiátrica

O foco na saúde mental, no resgate da alegria e da sobriedade especialmente em momentos difíceis e conturbados. O apoio ao indivíduo e a manutenção de uma base saudável de convivência ao seu redor. Objetivos de uma medicina psiquiátrica destinada ao viver melhor.

A Patologia da Conivência: O Custo de Premiar o Comportamento Inadequado

Ao longo de quase cinco décadas percorrendo os corredores de consultórios e hospitais psiquiátricos, observei uma mudança drástica na arquitetura psíquica das novas gerações. O que antes era uma exceção — a dificuldade gritante em lidar com o “não” — tornou-se a regra de ouro em muitos lares, inclusive aqui em nossa Matinhos. Quando sento diante de uma família, não vejo apenas indivíduos; vejo um sistema de reforços. O grande equívoco da modernidade foi confundir afeto com permissividade, e amor com a ausência de limites. É preciso ser categórico: recompensar um comportamento infantil indevido não é um ato de bondade, é um negligenciamento da formação do caráter.

Muitas vezes, os pais, exaustos por rotinas extenuantes ou carregados de culpa pela ausência física, utilizam a recompensa como um mecanismo de “compra de paz”. O filho faz um escândalo no supermercado e recebe o doce para silenciar. O adolescente desrespeita os limites de horário e ganha um upgrade no celular para “evitar conflitos”. O que esses pais não percebem é que estão operando sob a lógica do condicionamento operante, mas de forma invertida. Estão ensinando ao cérebro em desenvolvimento que a agressividade, a manipulação e o desrespeito são moedas de troca altamente lucrativas.

A Neurobiologia da Gratificação Imediata e o Fracasso da Auto-regulação

Do ponto de vista psiquiátrico, o cérebro da criança é uma estrutura em franca maturação, especialmente o córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas, pelo controle dos impulsos e pela capacidade de prever consequências. Quando um comportamento inadequado é seguido por uma recompensa — seja ela um objeto material, uma concessão ou mesmo uma atenção desproporcional —, o sistema de recompensa do cérebro, mediado pela dopamina, é ativado de forma espúria.

Se a criança aprende que a “explosão de fúria” resulta na obtenção do que deseja, o circuito neuronal de gratificação imediata é fortalecido em detrimento dos circuitos de auto-regulação. Com o tempo, essa criança perde a capacidade de tolerar a frustração. Na vida adulta, esse mecanismo se manifesta em quadros de ansiedade generalizada, baixa resiliência diante de fracassos profissionais e uma busca constante por alívios rápidos, o que frequentemente abre as portas para vícios e comportamentos impulsivos. Estamos criando adultos com “músculos emocionais” atrofiados.

O Reforço Negativo Disfarçado de Empatia

Existe um conceito perigoso que tem circulado em alguns nichos da pedagogia moderna que sugere que toda manifestação da criança deve ser validada e nunca reprimida. Como médico, devo intervir nessa interpretação. Validar a emoção é fundamental (dizer: “eu entendo que você está triste”), mas validar o comportamento disfuncional é um erro tático e ético. Se a tristeza se transforma em agressão física e essa agressão não encontra um limite firme, a criança entende que sua vontade é soberana sobre o outro.

No meu consultório aqui no litoral paranaense, atendo frequentemente casos de “adolescência tardia”. São jovens de 25, 30 anos que não conseguem manter um emprego ou um relacionamento estável. Ao mergulharmos na anamnese da infância, o padrão é quase sempre o mesmo: pais que “pavimentaram o caminho para o filho” em vez de “preparar o filho para o caminho”. Ao ceder para evitar o choro, os pais retiram da criança a oportunidade de aprender a lidar com a falta, que é o motor primordial do desejo e do crescimento psíquico.

Exemplos Práticos: Onde a Educação Falha no Cotidiano

Para tornar essa discussão palpável, observemos cenários comuns que ocorrem em nosso dia a dia, seja em um restaurante na orla de Caiobá ou em uma residência familiar:

  • O Escândalo por Eletrônicos: A criança grita porque o tempo de tela acabou. O pai, para não ser julgado pelos outros ao redor, devolve o tablet. Resultado: A criança aprende que o grito é a chave que destrava o acesso à tecnologia.
  • O Suborno para Comer: “Se você comer tudo, eu te dou um sorvete”. Resultado: A alimentação deixa de ser uma necessidade fisiológica e o bom comportamento vira uma transação comercial. A criança perde a percepção intrínseca do que é correto.
  • A Recompensa após a Desobediência: O filho desrespeita a mãe, mas logo em seguida o pai, sentindo pena da “tristeza” do filho após o castigo, o leva para passear. Resultado: Anulação total da autoridade materna e confusão sobre a hierarquia familiar.

A Síndrome do “Filho Imperador” na Sociedade Atual

O que chamamos coloquialmente de “filho imperador” é, na verdade, um reflexo de uma sociedade que teme o conflito. Vivemos um momento onde os pais querem ser “amigos” de seus filhos. No entanto, a amizade pressupõe uma relação horizontal, de igual para igual. A educação exige verticalidade. Um psiquiatra com décadas de prática sabe que a segurança psíquica de uma criança vem da percepção de que existe um adulto no controle. Quando a criança percebe que pode manipular os pais com seu comportamento, ela se sente, paradoxalmente, insegura. Se ela pode dobrar os “gigantes” que deveriam protegê-la, quem a protegerá do mundo?

Essa inversão de papéis é um dos principais gatilhos para transtornos opositores desafiadores (TOD) que vejo aumentarem em progressão geométrica. O limite não é opressão; o limite é contorno. Sem contorno, o ego se espalha, torna-se amorfo e incapaz de se ajustar às pressões da realidade social e profissional. Em Matinhos, uma cidade onde a vida comunitária é forte, o comportamento de uma criança sem limites reverbera na escola, no clube e na vizinhança, gerando isolamento social para a própria família.

A Diferença entre Recompensa e Incentivo

É vital distinguir o reforço positivo saudável da recompensa indevida. O incentivo deve ser focado no esforço e no processo, não no resultado final ou na cessação de um mau comportamento. Recompensar uma criança porque ela parou de gritar é premiar a interrupção de um erro que nem deveria ter ocorrido. Por outro lado, elogiar e incentivar a criança que, de forma autônoma, escolheu organizar seus brinquedos, fortalece a virtude.

A recompensa indevida é aquela que ocorre para estancar uma crise. Se houve desrespeito, agressão ou quebra de normas, a consequência deve ser o oposto da recompensa. Deve haver a privação de um privilégio. E aqui reside a grande dificuldade dos pais modernos: sustentar a privação. É doloroso ver um filho chorar, mas é muito mais doloroso vê-lo fracassar na vida por ser um adulto mimado e emocionalmente frágil.

O Papel da Família na Construção da Ética e do Bem-Estar

Como sociedade paranaense, valorizamos muito o bem-estar e a qualidade de vida. Mas não há bem-estar sem saúde mental, e não há saúde mental sem uma estrutura psíquica sólida. O papel da psiquiatria não é apenas tratar a doença instalada, mas orientar a profilaxia mental. Educar sem premiar o erro é uma forma profunda de medicina preventiva.

Quando os pais se mantêm firmes, eles estão ensinando ao filho o conceito de alteridade — a noção de que o outro existe e tem limites que devem ser respeitados. Estão ensinando a ética da responsabilidade. Ao não recompensar o erro, você está dizendo ao seu filho: “Eu te amo o suficiente para não permitir que você se torne uma pessoa desagradável e disfuncional”.

Conclusão: O Valor do “Não” como Ativo de Saúde Mental

Encerrando esta reflexão, gostaria de propor um exercício de introspecção aos pais e educadores de nossa região. Da próxima vez que seu filho apresentar um comportamento inadequado, resista à tentação da solução fácil. Resista ao impulso de oferecer um prêmio para que ele se acalme. O silêncio comprado hoje é o grito de angústia de amanhã, no divã ou no consultório psiquiátrico.

O “não” bem aplicado, sem violência mas com absoluta firmeza, é um dos maiores instrumentos de amor que um pai pode oferecer. Ele prepara o terreno para que a criança desenvolva resiliência, empatia e autodomínio. São esses os pilares que sustentam uma vida adulta plena e equilibrada. Na psiquiatria, aprendemos que as feridas da alma muitas vezes vêm do que faltou; mas as deformações do caráter, frequentemente, vêm do excesso de concessões.

Matinhos merece famílias fortes, crianças saudáveis e adultos íntegros. E tudo isso começa com a coragem de educar, sem atalhos e sem recompensas indevidas.

Dr. Everson Buchi de Matinhos – Psiquiatra