Medicina Psiquiátrica

O foco na saúde mental, no resgate da alegria e da sobriedade especialmente em momentos difíceis e conturbados. O apoio ao indivíduo e a manutenção de uma base saudável de convivência ao seu redor. Objetivos de uma medicina psiquiátrica destinada ao viver melhor.

A Fronteira Invisível: O Equilíbrio entre o Afeto e a Omissão de Autoridade

Ao longo de quase cinco décadas de prática clínica em psiquiatria, acompanhando o amadurecimento de três gerações aqui no litoral paranaense, percebo uma mudança drástica na arquitetura das relações familiares. Em meu consultório em Matinhos, é cada vez mais comum receber pais exaustos, sentindo-se reféns de seus próprios filhos. O que muitos diagnosticam erroneamente como “excesso de amor” é, na verdade, uma perigosa confusão entre carinho e subserviência. Esta distinção não é meramente semântica; ela define se estamos criando adultos resilientes ou indivíduos emocionalmente frágeis e socialmente inadaptados.

O carinho é o alicerce do desenvolvimento psíquico saudável. É o abraço que acolhe, a escuta atenta e o suporte emocional que permite à criança explorar o mundo sabendo que tem um porto seguro. Já a subserviência é o apagamento da autoridade parental em favor dos caprichos infantis. Quando um pai ou uma mãe se torna um “servidor” das vontades imediatas do filho para evitar um conflito ou uma crise de choro, ele não está amando; ele está negligenciando uma das funções primordiais da criação: a imposição de limites como ferramenta de estruturação do eu.

O Mito da Criança no Centro do Universo

Vivemos em uma era de “parentalidade intensiva”, onde o bem-estar da criança é colocado acima de tudo, inclusive da saúde mental dos pais. Em Matinhos, observo famílias que, ao buscarem o lazer em nossa orla, transformam o passeio em um exercício de servidão. A criança dita o que se come, quando se sai e como todos devem se comportar. O problema central aqui é que a criança não possui maturidade neurológica nem emocional para gerir essa liberdade.

A neurobiologia nos ensina que o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento e controle de impulsos, leva cerca de duas décadas para se desenvolver completamente. Quando os pais adotam uma postura subserviente, eles transferem uma carga de decisão insuportável para os ombros da criança. O resultado não é uma criança livre, mas sim uma criança ansiosa. Sem a barreira firme da autoridade paterna e materna, o mundo se torna um lugar vasto e assustador, onde ela não encontra contornos para seus próprios desejos.

A Frustração como Necessidade Vital

Um dos conceitos mais valiosos que transmito aos meus pacientes é o da frustração estruturante. Para que uma criança desenvolva resiliência, ela precisa lidar com o “não”. O carinho se manifesta ao dizer esse “não” com empatia, mas com firmeza. A subserviência, por outro lado, busca eliminar qualquer desconforto da vida do filho.

Quando os pais se desdobram para satisfazer todos os desejos — seja o brinquedo caro fora de hora ou a recusa em comer vegetais — eles estão privando o filho da oportunidade de desenvolver a tolerância à frustração. Na vida adulta, a sociedade não será subserviente a esse indivíduo. O mercado de trabalho, os relacionamentos afetivos e as intempéries da vida exigirão uma musculatura emocional que só se constrói na infância, através do enfrentamento de pequenos limites cotidianos.

Diferenciando Atendimento de Necessidades e Satisfação de Caprichos

É fundamental que os pais saibam distinguir o que é uma necessidade biológica e emocional de um mero capricho. Atender a uma necessidade é carinho; ceder a um capricho sistematicamente é subserviência.

  • Necessidade: Atenção quando a criança está triste, suporte no aprendizado escolar, alimentação saudável, sono regular e validação de seus sentimentos.
  • Capricho: Exigir que o jantar seja trocado por doces, recusar-se a guardar os brinquedos, desrespeitar horários estabelecidos ou usar a birra como moeda de troca para obter vantagens.

A subserviência frequentemente nasce da culpa. Pais que trabalham muito ou que passaram por criações autoritárias tendem a compensar a ausência ou o trauma sendo excessivamente permissivos. No entanto, a permissividade é uma forma de abandono disfarçada de bondade. Ao não balizar o comportamento do filho, os pais o deixam à deriva em seus próprios impulsos primários.

O Impacto na Saúde Mental da Família Paranaense

No contexto de nossa sociedade paranaense, valorizamos muito a coesão familiar. Contudo, essa proximidade não deve ser confundida com a perda de hierarquia. Tenho atendido muitos jovens adultos em Matinhos que sofrem da “Síndrome do Imperador”. São indivíduos que, ao chegarem à faculdade ou ao primeiro emprego, entram em colapso psíquico porque o mundo não se curva aos seus desejos como seus pais faziam.

A subserviência gera um narcisismo patológico. A criança cresce acreditando que o outro é apenas uma ferramenta para sua satisfação pessoal. Isso destrói a capacidade de empatia. O carinho, inversamente, ensina a reciprocidade. Quando eu amo meu filho, eu o ensino a também respeitar o meu espaço, o meu descanso e as minhas necessidades. Isso é educar para a vida em sociedade.

Cenário Prático: O Jantar em Família

Imagine a cena: a família está reunida para jantar. A criança decide que não quer a comida que foi preparada e começa a gritar.
A reação subserviente: O pai ou a mãe levanta-se imediatamente, ignora o próprio cansaço e prepara uma refeição diferente apenas para cessar o barulho, sentindo-se um “bom provedor”.
A reação com carinho e autoridade: O pai olha nos olhos da criança e diz: “Eu entendo que você preferia outra coisa, mas hoje este é o nosso jantar. Você pode comer agora ou esperar pelo café da manhã”. O carinho está no tom de voz calmo e na validação do sentimento da criança, mas a autoridade permanece na manutenção da regra estabelecida.

A Transição da Autoridade para a Autonomia

A função da psiquiatria e da psicologia na educação é auxiliar os pais a entenderem que o objetivo final da criação é a autonomia do filho. Mas a autonomia não nasce da liberdade absoluta desde o berço; ela é conquistada através de responsabilidades crescentes.

Um pai que faz a mochila do filho de 10 anos todos os dias está sendo subserviente. Ele está roubando da criança a oportunidade de organizar sua própria vida e arcar com as consequências de esquecer um caderno. O carinho, nesse caso, seria ensinar o filho a organizar a mochila e, caso ele esqueça algo, permitir que ele lide com a nota baixa ou a advertência da professora. Isso é preparar para a realidade.

O Papel do Exemplo

Não podemos esquecer que os filhos são observadores aguçados. Se eles percebem que os pais se anulam sistematicamente para servi-los, eles não aprenderão o valor do respeito. Eles aprenderão que o amor é uma via de mão única, onde eles apenas recebem. Em minha experiência clínica, os lares mais saudáveis são aqueles onde os pais preservam sua individualidade, seu lazer e seu relacionamento conjugal, demonstrando aos filhos que eles são amados, mas não são o eixo central em torno do qual o universo gira.

Considerações sobre a Prática Clínica em Matinhos

Aqui no litoral, o ritmo de vida muitas vezes nos convida a uma certa lassidão. No entanto, na educação dos filhos, a vigilância deve ser constante. Recebo frequentemente casos de ansiedade infantil que são, na verdade, reflexo da falta de contorno em casa. A criança “solta”, sem regras claras, vive em um estado de alerta constante, tentando descobrir até onde pode ir. Quando estabelecemos limites firmes imersos em carinho, o sistema nervoso da criança relaxa. Ela entende que há alguém no comando, alguém mais forte e experiente que garante sua segurança.

Portanto, peço aos pais que reflitam: vocês estão sendo o porto seguro ou o servo de seus filhos? O carinho liberta e fortalece; a subserviência escraviza a criança a seus próprios desejos momentâneos e enfraquece seu caráter futuro.

Conclusão: Educando com Olhar Clínico e Coração Aberto

Educar é um ato de coragem. É preciso coragem para ser impopular diante dos filhos em certos momentos. É preciso coragem para sustentar um olhar de reprovação quando necessário, sem perder a ternura. Quase cinco décadas de psiquiatria me ensinaram que o maior presente que um pai pode dar a um filho não é a ausência de problemas ou a satisfação de todos os desejos, mas sim a capacidade de lidar com a realidade de forma equilibrada.

O equilíbrio entre carinho e autoridade é a chave para a saúde mental. Que possamos, nas praias de Matinhos e em cada lar do nosso Paraná, cultivar famílias onde o amor seja expresso pela presença e pelo afeto, mas onde a autoridade parental seja o farol que guia os jovens em direção a uma maturidade plena e consciente.

A saúde mental da próxima geração depende da nossa capacidade de sermos pais presentes, afetuosos, porém jamais subservientes.

Dr. Everson Buchi de Matinhos – Psiquiatra