Medicina Psiquiátrica

O foco na saúde mental, no resgate da alegria e da sobriedade especialmente em momentos difíceis e conturbados. O apoio ao indivíduo e a manutenção de uma base saudável de convivência ao seu redor. Objetivos de uma medicina psiquiátrica destinada ao viver melhor.

Capítulo Hum – Eles 

Eles, Os Goldens, eles são dois. Gêmeos, um macho e uma fêmea, indistinguíveis ao primeiro olhar. Duas lindas bolotas peludas, de cor perolada. Detém em si enorme poder, que faz os humanos se apaixonarem à primeira vista. Os humanos, ao olharem para eles, tem seus melhores sentimentos aflorados. Foram trazidos para a localidade para ficarem em um espaço terapêutico infantil chamado IDEB. Um espaço de pleno amor, no qual neurodivergentes são acolhidos e adultos em busca de paz e saúde mental também são benvindos e acompanhados. As bolotinhas peludas são saudáveis, recebem todas as vacinas, as proteções requeridas e dobraram de peso em menos de 15 dias. 

Capítulo dois: Eles e a fortaleza 

Ainda crianças, como todas as crianças passam seus dias em folguedos. Como os de sua espécie gastam seu tempo acordado a rosnarem um para o outro, a se morderem, correm alucinadamente um atrás do outro, e o outro atrás do um. Exploram o ambiente e aprendem coisas com incrível rapidez. Ainda não são apreciadores de banhos, mas mercê de sua frenética atividade é preciso jogar-lhes água com mais frequência do que, por exemplo, nos seus primos, os São Bernardos, muito mais plácidos e igualmente belos, porém menos inteligentes e de capacidade de aprendizagem mais curtinha.  

Os humanos costumam chamar o lugar que habitam de minha fortaleza. A chegada deles à fortaleza dos dois idosos foi motivo de alegria. Deram-lhes os nomes de Paloma, por óbvio à Fêmea, e ele foi apadrinhado como Leogevildo D`Alberge , o “de” em razão de seu nariz levemente afrancesado. Foi logo despido de sua nobreza e de seu pedigree e transformou-se no vulgo “Léo”. Alguns poucos que o conheceram acreditam que poderá ser um DJ quando adulto, visto gostar do barulho que produz. Ama latir. Paloma, a princesa Pá, mantém sua pose pedeegrisenta, cheia da empáfia dos que são e sabem disso.  

Capítulo três A Fortaleza e a Bastilha 

A paz e o clima de lua de mel entre aqueles que coabitavam a supracitada fortaleza sofreram seu primeiro abalo ontem. A tarde vinha iniciada e os idosos já estavam no Espaço Terapêutico cumprindo seus deveres profissionais, com toques de espiritualidade, quando soou o telefone. Era um som diferente, o trim-trim, que hoje em dia é um zum-zum, que vira baticudum e cada aparelho soa diferente. Mas agora não era o som em si, era a energia do som. Algo havia acontecido na Fortaleza, que exigia a presença imediata de alguém. 

Um pouco de coisas do Além 

Sim, é fato que desde os primórdios dos tempos os humanos acreditam que seres de outras dimensões possam, por força energética, deles se aproximar e que possam suprimir lhes, parcial ou totalmente O CONTROLE SOBRE SEU CORPO FÍSICO. O autor não entra no mérito de nada, apenas conta um conto. Fatos, apenas fatos. Acredita o autor, famoso por sua ingenuidade, que um dia poderá ter fotos para colorir de realidade seu longo conto. 

O telefonema e a Bastilha. 

Fato é que no chamamento do telefone desabalou-se a idosa para casa e em lá chegando, para surpresa de todos, deparou-se com cena terrificante. Explico, é claro – calma! E aproveito para apresentar-lhes a Bastilha. 

Acontece que a Fortaleza tem um espaço chamado Bastilha. Nas outras casas chama-se cozinha, mas nessa situação específica é “Bastilha”, pois o acesso é proibido para todos, exceto a dona. É um tabu domiciliar! Para que não falem que é exagero do narrador, tem uma outra pessoa que é autorizada a entrar na Bastilha e apenas essa uminha. Na verdade, nem conta, pois o personagem de tal benesse. O Raul, mora na Suíça e só de quando em quando vem ao Brasil. Ninguém mais. 

Obviamente que a porta de acesso à cozinha, vulgo Bastilha estava fechada, quando os idosos saíram de casa. Imagine que não…! Porém, nesse ponto de nosso conto, não estava mais. Havia sido traspassada e a Bastilha invadida. Até vaso de planta tinha pelo chão e havia terra para todo lado e em todo cantinho. Horror dos horrores! 

A incorporação dos Gêmeos 

O arrombamento foi causado pelas duas bolotas peroladas, que exalavam o perfume da felicidade, o êxtase dos que conhecem o Nirvana. Tudo mordido, até a Palma de São Jorge, potencialmente tóxica. Não, não foram os dois Goldens, claro que não. Sei até que ninguém pensou nisso. Vendo as duas pelotas peludas fora de si, a vistoriante percebeu logo que as mesmas estavam incorporadas por algum espírito, talvez até das trevas. Da Luz é que não eram. 

Esgrimindo um rosário abençoado pelo padre Reginaldo logo domou os dois espíritos, que se confessaram ser da linha dos Nhac-nhacs, da linhagem do Pai Espírito de Porco, mordedores e condenados a fazer bagunça e que são encosto perene de Goldens.  

Expulsos os nhac-nhacs, ainda agarrada ao seu rosário protetor, olhos lacrimejando, a idosa voltou para o ambiente laboral, onde, tal qual Pedro, o Primeiro proclamou; A Bastilha caiu…! Ela não existe mais…! Alma encolhida, voz em luto, completou: Já podem ir lá pegar água sem precisar pedir para mim. 

É o primeiro milagre dos Goldens – a queda da Bastilha.

Dr. Everson Alberge Buchi